Um caso recente no consultório ilustra bem por que uma restauração antiga nunca deve ser vista como “resolvida para sempre”: uma paciente chegou com um desconforto leve ao mastigar e uma restauração perceptivelmente solta sobre o dente. No exame, já era possível notar uma linha de fratura cruzando a coroa. Ao remover a restauração antiga, a fratura se revelou muito mais extensa do que parecia de fora, atravessando o dente de um lado a outro, próxima à raiz.

O Que É uma Fratura Radicular
A fratura radicular é a quebra da própria raiz do dente, a estrutura responsável por ancorá-lo no osso. É diferente de uma trinca superficial de esmalte: aqui há uma separação real do tecido dentário, que pode ser identificada clinicamente e por exame de imagem. Dependendo de onde a fratura acontece (mais perto da coroa ou mais perto da ponta da raiz) e de quanto ela se estende, o impacto no dente, e as chances de conseguir preservá-lo, mudam bastante.
Como a Restauração Antiga Contribuiu Para Esse Caso
Restaurações antigas e extensas enfraquecem gradualmente a estrutura que resta do dente natural ao redor delas. Com o tempo, o material perde a adaptação original, e pequenas infiltrações e o próprio desgaste da mastigação podem transformar a restauração em uma espécie de “cunha” dentro do dente, um ponto de concentração de força que, sob mordida, favorece o aparecimento de uma trinca e, depois, de uma fratura mais profunda. É exatamente esse padrão que a segunda foto do caso mostra: com a restauração removida, a linha de fratura aparece atravessando o assoalho do dente de um lado a outro.

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Causas Mais Comuns de Fratura Radicular
- Trauma direto, quedas e pancadas, mais comuns em dentes da frente.
- Bruxismo, apertar e ranger os dentes, principalmente à noite, concentra força repetida sobre dentes já enfraquecidos.
- Restaurações antigas e extensas, como no caso acima, reduzem a estrutura dentária remanescente e criam pontos de fragilidade.
- Pinos protéticos metálicos, quando usados em dentes tratados endodonticamente, podem funcionar como uma cunha rígida dentro da raiz.
- Cárie não tratada, a infiltração bacteriana também enfraquece progressivamente a estrutura ao redor.
Sinais e Sintomas
Nem toda fratura radicular dói, muitos casos são descobertos numa avaliação de rotina, sem qualquer sintoma prévio. Quando há sinais, os mais comuns são desconforto ao mastigar ou ao apalpar a região, um leve aumento de mobilidade do dente, inchaço ocasional da gengiva ao redor, e, como no caso deste artigo, a percepção de que uma restauração antiga “ficou solta”.
Como é Feito o Diagnóstico
O diagnóstico começa no exame clínico, percussão, palpação da região do ápice da raiz e avaliação da mobilidade do dente, e é complementado por radiografia. Fraturas mais sutis ou verticais nem sempre aparecem com clareza numa radiografia convencional; nesses casos, a tomografia computadorizada (cone beam) é o exame que oferece a visão mais precisa da extensão real da fratura.
Fratura Perto da Coroa x Fratura Mais Profunda na Raiz: o Que Muda no Prognóstico
A localização da fratura é o fator que mais pesa na decisão de tratamento:
- Terço próximo à coroa (cervical): geralmente o prognóstico mais favorável, em alguns casos permite tracionamento ortodôntico do fragmento remanescente antes de uma nova restauração ou coroa.
- Terço médio da raiz: prognóstico intermediário, com acesso mais difícil para qualquer intervenção.
- Terço próximo à ponta da raiz (apical): dependendo do caso, pode ser candidato a apicetomia (remoção cirúrgica da ponta da raiz fraturada).
De forma geral, dentes da frente com fratura tendem a ter prognóstico mais favorável do que dentes posteriores (molares e pré-molares), justamente pela dificuldade maior de acesso e diagnóstico nesses últimos.
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Quais São as Opções de Tratamento
O tratamento depende diretamente da localização e da extensão da fratura, e só pode ser definido após avaliação clínica e de imagem:
- Imobilização temporária do dente, quando a fratura permite, para dar tempo de reparo aos tecidos ao redor.
- Tratamento de canal, quando a fratura compromete a polpa.
- Coroa protética, para proteger e devolver função ao dente após a estabilização.
- Ressecção radicular (remoção apenas da raiz fraturada, preservando o restante do dente), em casos selecionados de dentes com mais de uma raiz.
- Extração, quando a fratura compromete a raiz de forma extensa ou vertical, sem condição de reparo, infelizmente esse é o desfecho mais comum em fraturas verticais que atravessam a raiz de um dente com uma única raiz.
Dá para Salvar o Dente Sempre?
Não. É importante ser honesto sobre isso: quando a fratura é vertical e atravessa a raiz de lado a lado, como sugere a segunda foto deste caso, o prognóstico costuma ser reservado, principalmente em dentes posteriores. A avaliação clínica e de imagem é o que define, caso a caso, se ainda existe uma estrutura suficiente para tentar preservar o dente ou se a extração (seguida de planejamento de reposição, como um implante) é o caminho mais indicado. Cada situação tem suas particularidades, a avaliação presencial é o único jeito de saber com segurança.
Como Prevenir
Trocar restaurações antigas e extensas antes que comprometam ainda mais a estrutura do dente, tratar o bruxismo (com placa de proteção noturna, por exemplo), evitar morder objetos duros (gelo, canetas, abrir embalagens com os dentes) e manter consultas periódicas, mesmo sem dor, são as formas mais eficazes de identificar um dente em risco antes que a fratura aconteça ou avance.
Se você tem uma restauração antiga, grande, ou já sentiu que ela ficou “meio solta” em algum momento, vale a avaliação: como mostra o caso deste artigo, o que parece um problema pequeno por fora pode esconder uma fratura bem mais extensa por dentro.
Conheça a página do serviço: Restaurações Dentárias.
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Sobre o autor
Dr. Rodrigo Sandin — cirurgião-dentista, CRO-SC 13112, especialista em Ortodontia (UFSC, 2013) e Invisalign Doctor certificado. Atende em São José/SC e região da Grande Florianópolis.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma consulta odontológica: cada caso deve ser avaliado individualmente por um profissional habilitado, sem promessa de cura ou resultado garantido.
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